A Gaiola Dourada – Crítica

A Gaiola Dourada - Crítica

Produção franco-portuguesa, A Gaiola Dourada (2013), é a primeira empreitada do diretor Rubem Alves, e conta a história de uma família de imigrantes portugueses vivendo na França. Trata-se de uma família de proletários que mora na portaria de um condomínio em um bairro de luxo em Paris. Maria é uma mãe dedicada que trabalha como síndica do prédio, enquanto José Ribeiro, seu marido, trabalha na construção civil, sendo uma espécie de “faz tudo” do condomínio.

Pela sua simplicidade, altruísmo e grande dedicação ao trabalho, a família Ribeiro é muito querida por patrões e amigos, mas tudo muda quando José descobre que uma grande herança o aguarda em Portugal, e a família tem poucos meses para regressar ao seu pais de origem. Quando a notícia se espalha, o núcleo francês da trama faz de tudo para impedir que os portugueses retornem à terra natal.

A Gaiola Dourada é uma comédia à moda antiga. O humor é sutil e não se sobrepõe à trama. Elementos como narrativa, edição e fotografia tem primazia sobre piadas e gagues gratuitas. Aliás, sobre a fotografia, é curioso observar que ela está em total consonância com o título do filme: tudo é muito iluminado, sempre com cores quentes, mesmo em cenas noturnas.Os tons amarelos e dourados aparecem amiúde em cenários e figurino, trazendo um atrativo a mais para a obra.

São pontos positivos para o filme, mas que podem gerar algum estranhamento no espectador brasileiro, mais acostumado a comédias de humor explícito e roteiro raso, como ocorre na maioria dos filmes brasileiros e norte-americanos do gênero.

Quanto a esse ponto, que toca na (baixa) aceitação de uma película desse tipo em terras brasileiras, há muito que podemos ponderar. Como já disse o filósofo francês Pierre Lévy, ao lermos um livro, nós o confrontamos com o nosso próprio repertório, ruminamos a obra, e a interpretamos de uma maneira única.

A Gaiola Dourada - Crítica

O mesmo ocorre na apreensão de um filme. Assistir A Gaiola Dourada, sob a perspectiva única de um brasileiro, é uma experiência bastante curiosa. Não importa se você é (ou não) descendente direto de portugueses. É possível ver muito de nossa cultura representada pela família Ribeiro: várias alusões ao futebol, mesas fartas com a família reunida, matriarcas cozinheiras e o clássico tio malandro que ensina palavrões às crianças.

Os franceses, por outro lado, aparecem sempre comedidos e discretos, divertindo-se com o jeito descontraído dos portugueses. É curioso notar que os franceses, assim como nós, brasileiros, fazem piadas com os portugueses baseadas em clichês, como os bigodes femininos, o fado e o bacalhau.

O diretor explora essas diferenças entre os dois povos a um ponto que beira a caricatura (começando pelos próprios nomes dos protagonistas), mas isso tem mais pontos positivos que negativos, na medida em que enfatiza o choque cultural, sem menosprezar uma cultura ou a outra. Há um momento divertido em que o tio se decepciona com o sobrinho português que prefere estudar a jogar bola.

A gaiola dourada

Apesar de estarem, como eles mesmos dizem, separados por apenas 2 horas de voo, portugueses e franceses são como duas espécies diferentes tentando habitar o mesmo espaço e, como sempre acontece nesses casos, uma acaba se submetendo à outra, de modo que a parte lusitana da trama aparece sempre retratada em subempregos e posições submissas.

Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra seminal: Raízes do Brasil, é próprio dos povos ibéricos uma tendência à não cooperação mútua, porém, quando se defrontam com povos estrangeiros, surge uma propensão à submissão e hierarquia, que são muito bem retratadas no filme.

Nas palavras de Buarque de Holanda: “em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior, respeitável e temida”. Ou seja, é sim uma comédia de costumes, um filme leve e divertido para a toda família, mas que retrata as idiossincrasias desses povos e as consequências do choque cultural de uma maneira bastante contundente, como muitas outras obras de intenção mais séria penam para conseguir. Por abarcar todas essas questões de uma forma leve e divertida, com um roteiro emotivo e muito bem acabado, A Gaiola Dourada é um filme que merece ser assistido.

Trailer Oficial:

Nota: 3/5

3estrelas

gaiola-douradaA Gaiola Dourada

Diretor: Rubem Alves
Duração: 90 minutos
Distribuição: Europa Filmes
Elenco: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud
Gênero: Comédia
Lançamento: 28 de fevereiro de 2014

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  • Diello Arias

    Muito bom o comentário. Despertou a vontade de conhecer o filme.

  • Nuno Paiva Rêgo

    Apesar do meu nome, meus últimos ascendentes portugueses foram bisavós que não conheci, mas é impossível a um brasileiro não se reconhecer em A Gaiola Dourada. Acho que fica no DNA.

  • mafiosa.m

    Interessante a abordagem, dá vontade de ver o filme, mas parece muito com o que acontece no Brasil, onde se algum subalterno tenta galgar postos superiores, é logo sutilmente “achatado” para que se mantenha no lugar, ou recebe propostas “tentadoras” para que não abandone a empresa onde foi escravizado e desvalorizado durante tantos anos…

  • Luciane Pereira

    Ótima crítica, relatou de uma forma perfeita o filme, que ao mesmo tempo que eu lia imaginava na minha cabeça as cenas do dele, despertando um grande interesse em assistir. E ainda mais abordando a familiaridade com a nossa cultura e creio que também a nossa necessidade de um filme com humor leve e contagiante.