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Alguém manipula nossas identidades no filme Los Parecidos

Imagine um diretor fascinado pelos filmes e séries sci-fi e de terror B dos anos 1950 como “Além da Imaginação” que produz um filme com mix da atmosfera dos filmes noir e do hotel Overloock de “O Iluminado”? O resultado é um filme estranho, fora da curva dos atuais thrillers de horror. É o filme Los Parecidos (2015) do diretor mexicano Isaac Ezban que vem conquistando prêmios no circuito internacional de festivais do fantástico e do horror. Em uma noite de forte tempestade, em 1968 no México, um grupo fica preso em uma pequena e remota estação rodoviária, à espera de um ônibus que nunca chega. Estranhas notícias pelo rádio dão conta que aquele temporal não é comum: o que cai do céu junto com a chuva provoca estranhas mudanças comportamentais, e suspeita-se de um fenômeno global. O filme utiliza elementos do fantástico para discutir um tema muito sério: se a nossa identidade é o resultado do jogo da percepção (o olhar de um para o outro), como isso pode ser moldado por influências externas? Mídia? Uma inteligência alienígena? Ou apenas o resultado da paranoia mútua?

Los parecidos é um filme muito estranho e esquisito. Um diretor que teve a coragem de produzir um roteiro tão maluco que utiliza elementos do fantástico para refletir sobre um tema real, merece o respeito desse Cinegnose.

Trata-se do diretor mexicano Isaac Ezban, fascinado pelos filmes B dos anos 1950 e séries como Além da Imaginação e Amazing Stories sobre como o fantástico e o inexplicável podem furtivamente invadir o cotidiano sem nos darmos conta. E quando percebemos, já é muito tarde.

Mas, principalmente, Ezban é fascinado pela atmosfera dos filmes de terror e sci fi dos anos 1960 onde os elementos do fantástico eram usados como metáforas de problemas bem humanos, políticos e sociais do momento. Como, por exemplo, A Noite dos Mortos Vivos (1968) de George Romero com o pano de fundo dos conflitos raciais que explodiam nos EUA naquela década – os zumbis como uma incisiva metáfora de um levante racial.

No caso de Los Parecidos (disponível no Netflix), temos um thriller sobrenatural que tem como pano de fundo os protestos estudantis no México e a matança em Tlatelolco em 1968 no qual mais de mil manifestantes foram mortos por forças do exército. Além da explosão da contracultura na cultura pop: hippies, drogas alucinógenas e o rock.

Apesar de filmado com câmera digital, Los Parecidos emula a fotografia de película dos filmes preto e branco da época, numa caprichada reconstituição dos figurinos e objetos. Um perfeito  trabalho de fotografia que também busca referência nos filmes noir dos anos 40 e 50 (escuridão, fortes contrastes, luzes indiretas etc.), com todos os cânones desse gênero: narração em of, chuva, sombras, paranoia etc.

Liquidificador vintage

E ainda nesse liquidificador vintage, o argumento de Los Parecidos ainda faz referência a O Iluminado de Kubrick, com um estranho menino paranormal em cenas de corredores que lembram a atmosfera sinistra do Hotel Overloock.

O ponto de partida é simples e toda a trama se passa na madrugada de 2 de outubro de 1968 (data do fatídico massacre de Tlatelolco) onde sete pessoas estão presas (além do bilheteiro) em uma estação de ônibus numa noite em que cai uma terrível tempestade. Todos têm pressa para chegar na Cidade do México pelos mais variados motivos, mas todas as linhas estão atrasadas, sem poderem chegar na estação em virtude das fortes chuvas.

Ezban quer discutir no filme o problema da identidade em um mundo onde tantas vezes nos sentimos iguais devido a influência massiva dos meios de comunicação de massa e da educação – e nos anos 1960, foi um dos momentos onde os movimentos contra culturais mais tematizaram essa questão.

 

Como pessoas diferentes, com suas preocupações, vidas e destinos diferentes, podem se tornar “parecidos” ou similares em uma estação de ônibus perdida no meio do nada. E se essa “massificação” cultural deixar o campo da metáfora e ingressar na dimensão do sobrenatural e do fantástico?

Além disso, Los Parecidos explora o arquetípico e gnóstico personagem do “Viajante”, no filme tanto literal como metaforicamente – são pessoas absorvidas, cada um com seus próprios problemas, que são submetidas involuntariamente em um jogo no qual aprenderão, da pior maneira possível, que existe um mundo real e ao mesmo tempo estranho em torno deles.

O Filme Los Parecidos

Oito personagens à espera de um ônibus que nunca chega em uma pequena e remota estação rodoviária em uma madrugada de terrível temporal. Cada um imerso em seus próprios problemas e com motivos diferentes para chegar o mais rápido possível na Cidade do México.

Um engenheiro de minas (Ulisses – Gustavo Parra), uma empresária e seu filho com um rara doença (Gertrudes – Carmen Beato, e o menino Ignácio – Santiago Torres), um estudante de Medicina (Álvaro – Humberto Busto), uma mulher grávida que foge de um companheiro violento (Irene – Cassandra Ciangherotti), uma idosa indígena (uma xamã?) e mais um homem com estranhas ataduras em volta do seu rosto com sua companheira desesperada e o bilheteiro Martín (Fernando Becerril) – um senhor solitário que vive naquela estação há 30 anos, cercado de revistas pornográficas e pôsteres de James Bond, Marilyn Monroe e Os Beatles.

Um estranho fenômeno começa a suceder: entre muita estática, ouve-se no rádio que aquela tempestade parece ser um fenômeno global que atinge outros países da América, chegando na Europa.

 

Enquanto cresce a tensão naquele grupo confinado em um pequeno saguão, as notícias pelo rádio informam estranhos fenômenos associados à chuva, ondas de pânico e alterações comportamentais – nesse ponto Los Parecidos lembra bastante a narrativa do conto fantástico “Neblina Sobre Xebico” (“Night Wire”) de H.F. Arnold, já discutido pelo Cinegnose – clique aqui.

Parece que o que cai dos céus na tempestade não é água, mas algo viral e extraterrestre, contaminando as pessoas e tornando-as… iguais ou parecidas!

Um por um na estação começa a ver, um no outro, o estranho sintoma de transformação: homens e mulheres, todos de barba e um farto cabelo escuro. E o mais estranho: nas próprias revistas e pôsteres nas paredes, todos estão com o mesmo rosto – o que cria situações bizarras como a tradicional foto de Marilyn Monroe com o vestido levantando com um rosto de barba e cabeleira negra.

Há um evidente humor negro a partir desse momento, mas as coisas ficarão mais sinistras quando o menino Ignácio tornar-se o pivô dos acontecimentos, assim como o menino no filme O Iluminado.

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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.