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Animais Noturnos é um conto sobre culpa, vingança e… insônia

Animais Noturnos é um conto sobre culpa, vingança e... insônia

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016) é uma delicioso conto de vingança. Não pelo sabor da violência da vingança em si, mas pelo caminho pela qual ela trilha: a insônia e as memórias. Ao fazer uma adaptação do livro de Austin Wright, o diretor Tom Ford produz mais um filme de uma recorrente mitologia gnóstica que envolve a insônia e a noite no cinema – momentos em que as ilusões e as aparências do dia são dissolvidos pelo silêncio noturno. A privação do sono como desencadeador daquilo que queremos esquecer: as diversas camadas de realidade do presente e do passado – culpa, remorso e as oportunidades perdidas de uma protagonista que esqueceu o idealismo da juventude em troca de uma vida materialmente bem sucedida como empresária do mercado de arte. Até receber os originais de um novo romance, um thriller brutal sobre uma família perseguida por uma gangue no Oeste do Texas que a fará fazer uma acerto de contas com suas escolhas na vida.

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016) é um conto sobre culpa, vingança e… insônia.

Se as representações da noite na teologia mística passam por tudo aquilo que dissolve o conhecimento, o exprimível; a purificação da memória desejos e afetos, é na insônia que a noite assume os seus simbolismos mais gnósticos: é exatamente à noite que não devemos dormir. Precisamos ficar despertos para ficarmos atentos às ilusões que nos levam aos enganos durante o dia.

Nesse sentido, a velha exortação gnóstica “Acorde!” ganha sentido.

No cinema esse tema da insônia como a oportunidade aberta para o protagonista conhecer a verdade é recorrente como em Cidade das Sombras (1998), Matrix (1999), Donnie Darko (2001), Vanilla Sky (2001) Insônia (2002). Ou ainda, o dormir como uma situação perigosa na qual o protagonista será possuído pelo Mal como em Vampiros de Almas (1956), Invasores de Corpos (1978) ou Invasores (2007).

De qualquer forma a noite existe para ficarmos despertos para a manifestação da verdade.

Em Animais Noturnos, o diretor Tom Ford ingressa nesse imaginário místico e gnóstico ao adaptar o romance de Austin Wright chamado “Tony and Susan”, de 1993, ampliando crueldade e ironias com pitadas de pornografia hardcore e muita provocação.

Já começando com os créditos iniciais no qual vemos planos de câmera deslizando como se estudasse detalhes dos corpos de cheerleaders com obesidade mórbida dançando e rebolando em slow motion diante de uma cortina vermelha, ao melhor estilo das bizarrices dos filmes de David Lynch.

Um filme com roteiro meticulosamente desenhando em três camadas narrativas que correm paralelas como níveis de realidade – em vários momentos do filme, nunca sabemos quais desses níveis é realmente real.

 

Níveis de realidade que são memórias de culpa, remorso, de uma bem sucedida empresária do mercado das artes, infeliz no casamento e ressentida por ter abandonado o idealismo da juventude. O bem estar material funciona como um anestésico ao seu mal estar. Mas a sua insônia selvagem é a oportunidade para a protagonista abrir-se aos outros níveis da realidade através das memórias – uma experiência brutal de horror e desespero.

O Filme Animais Noturnos

Logo nas primeiras sequências percebemos que a bizarra abertura ao estilo David Lynch com as cheerleaders obesas fazem parte de uma exposição de arte conceitual de uma grande galeria de arte em Los Angeles cuja curadora é Susan (Amy Adams), naquele instante vivendo o topo da sua bem sucedida carreira como empresária de arte.

Susan é bela, altiva, vivendo um estilo de vida extravagante numa imensa casa com grandes portões de aço polido e esculturas abstratas em seu quintal. Mas um estilo em grande parte bancado por Hutton Morrow (Armie Hammer), um ocupado homem de negócios com quem ocasionalmente se encontra no café da manhã. Ele prepara-se para mais uma viagem de negócios, enquanto Susan tem sérias dúvidas sobre sua fidelidade.

Susan abandonou suas próprias ambições de ser artista na juventude, e agora é apenas uma empresária especialista em peças artísticas contemporâneas, com um ar blasé, vivendo uma vida minimalista chique e com uma pesada maquiagem que mais parece uma máscara para protege-la dos outros e de si mesma.

Mas também para esconder as marcas das noites mal dormidas – Susan sofre de insônia, enquanto seu marido e amigos da galeria de arte alertam que ela deve dormir. Fica evidente que o “dormir” é um apelo para que Susan se acomode à sua vida superficial.

Para os leitores que acompanham a metodologia de análise dos filmes gnósticos, Animais Noturnos apresenta o típico protagonista do Viajante: rico e bem sucedido, teria tudo para estar em paz com a vida. Mas algo está faltando ou alguma coisa não encaixa. Por isso terá que se confrontar com alguma jornada espiritual. E a insônia propiciará essa experiência.

 

No filme, Susan se confrontará com os “animais noturnos” do título: inesperadamente, recebe pelo correio o manuscrito original de um romance inédito do seu primeiro marido, Edward (Jake Gyllenhaal), de quem não tinha notícias há 20 anos – cujas lembranças é de um jovem sensível e intelectualizado, cujo sonho era trabalhar em uma livraria e tornar-se um escritor.

Muito pouco para os ricos pais de Susan (que o viam como um homem “fraco” e sem ambições). Porém, na juventude de Susan fazia todo sentido com suas pretensões artísticas e um mestrado em História da Arte.

Mas o realismo e a “maldição” jogada pela sua mãe (“a tendência das filha é tornarem-se iguais à suas mães… é só você esperar…”) fez Susan largar o idealismo de Edward para mergulhar na vida bem sucedida de Hutton.

O tema da vingança

A insônia de Susan a faz embarcar na leitura dos originais do novo romance de Edward: um thriller brutal – um homem de família sensível e intelectualizado chamado Tony (imaginado por Susan como Edward no papel) dirige seu carro com esposa e filha adolescente por uma estrada remota à noite no interior do Texas. Até serem aterrorizados por uma gangue liderada pelo brutal Ray (Aaron Taylor-Johnson) num previsível desfecho de pesadelo selvagem.

Susan lê horrorizada, porque o manuscrito a levará forçosamente às lembranças do seu primeiro casamento com Edward e ao idealismo da juventude derrotado pelo realismo – o “fraco” Edward substituído pelo “forte” e vencedor Hutton.

O tema da vingança começa a emergir, tanto no manuscrito – a busca da vingança de Tony (no meio do deserto do Texas) e o próprio manuscrito como vingança tardia de Edward.

Combinado com a insônia, o manuscrito de Edward abrirá para Susan as outras camadas da realidade que a vida materialmente bem sucedida quer esconder.

 

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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.