Como apps de relacionamentos podem ser legais, mas também podem te tornar descartável

Tinder, Happn, OkCupid e os passos na neblina do acaso

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Um universo de números binários. Eletricidade. Wi-Fi, 3G. Dados, informações. É ali, no mundo virtual que depositamos grande parte de nossas vidas hoje.

Seja para realizar um trabalho, rir de algum vídeo engraçado, conversar com familiares, amigos ou tentar encontrar um grande amor. A famosa tampa da panela.

Se relacionar pela Internet já não é mais novidade. Desde os primórdios do Bate-Papo UOL, o ICQ, mIRC, mais tarde redes sociais como Fotolog e Orkut foram poderosas ferramentas para as pessoas rumarem à missão de encontrar um par.

Tinder, Happn, OkCupid!, Adote Um Cara, POF, Jaumo. Todos estes aplicativos e mais alguns pares deles vieram para facilitar ainda mais as coisas. Conectar pessoas com um deslize de dedo.

Na teoria, funciona de forma bem fácil. Se o par gostar um do outro, tem a possibilidade de conversar entre si.

Mas será que na prática é tão simples assim?

tinder

Tem gente que “curte” todo mundo. Há quem tire uma base das personalidades encontradas pelas informações do perfil. Ou os que reparam apenas na embalagem do produto.

Aí vai da criatividade e disposição de cada um para embalar um bate-papo.

Abordar uma característica física, um gosto pessoal, uma música de gosto incomum. Uma piada, contar vantagem, ou até uma baciada de palavras de baixo calão e comportamento imbecil fazem parte das conversas.

Esses lugares são um grande mercado público de possíveis flertes, paqueras, ficantes, namorados. E apesar dos obstáculos e adversidades, quem sabe grande amores?

 

“Arrumar namorada hoje é que nem emprego.

Tem o currículo lá no app.

Cê é filtrado entre uma infinidade de candidatos.

Marca a entrevista.

Passa pelos criteriosos olhos do RH.

Faz uma redação e um exercício que simula a realidade.

Deixa o telefone e noutro dia espera a ligação.”

 

No meio de tanta casualidade, pode haver espaço para a intuição.

Nadamos com braçadas fortes na ideia de que o universo traga uma fagulha de esperança para nossos corações singelos, pacíficos, tímidos, machucados, partidos, renascidos ou apenas abertos.

E para conquistar o sucesso nesse ramo, há diferentes tipos de perfis de aplicativos. Alguns ligam pessoas pela localização, outros por interesses.

Cada qual tem o seu público. Hipsters, playboys, nerds, piranhas, periguetes, voyeurs, fetichistas, e muitos rótulos e tags que podem se aplicar à pessoas.

E em meio a isso tudo, claro, os(as) trogloditas e possivelmente psicopatas e criminosos(as). Nesta etapa felizmente nunca cheguei, apesar de ter ouvido histórias escabrosas.

Apps de relacionamentos e os degraus da aleatoriedade

Quando comecei a usar esses apps, me julguei sem sorte. Mas também sem azar. Conheci pessoas legais e que podem render uma amizade por muito tempo. Não necessariamente tive relação amorosa com essas pessoas.

O Tinder mesmo se julga como um programa para que as pessoas se conheçam. O mote deles não é sexo casual ou encontros românticos. Muitos usam ele e outros apps para fazer amigos. Neste sentido, tive relativo sucesso.

Tudo é uma roleta russa. Ou seja, a história da vida de duas pessoas completamente distintas que chocam-se entre si e rola aquele “ver no que vai dar”.

Cheguei a usar todos os aplicativos citado no início do texto. Mas fiz amigas “no mundo real” apenas em aplicativos como Happn e OkCupid.

Sou um cara de coração aberto e muito fácil de lidar, apesar de um tanto tímido à primeira vista, logo considero essas pessoas como importantes para meu crescimento pessoal.

Também sou um apreciador de boas histórias e boa música. Neste sentido, a troca cultural foi enriquecedora. Ganhei novas bandas favoritas, indicações de livros, séries, filmes e me diverti horrores com personalidades caricatas e divertidas.

Não é sempre que você conhece uma figura que narra histórias usando os dedos como fantoches e personagens da sua própria narrativa.

Após uma época conturbada na vida, nada como uma mudança de perspectiva e se abrir para novos mundos. E é nessa parte que os aplicativos e a aleatoriedade podem ajudar.

Devo dizer que na minha roda da casualidade, tive sucesso com o Happn. Ou seja, aquela velha expressão de ‘a sorte pode estar embaixo do seu nariz’ entra em prática.

Acontece que, devido à grande variedade de personalidades, gostos, tipos, interesses em comum à distância de um clique, as pessoas ficam um tanto perdidas.

O ver no que vai dar se torna ver nada.

Todo mundo parece estar saturado.

 

“Constância. A capacidade de termos um pensamento linear e consistente, está em crise.” – Zygmund Bauman

 

Mais aparência, menos sinceridade

Vivemos em uma geração “rede social”. Significa que o individualismo contemporâneo faz com que criemos imagens na Internet. Mundos paralelos os quais parecemos, não somos. A aparência se torna mais importante que a sinceridade.

O resultado é uma poderosa resistência em criar afinidades, vínculos.

Estou criando vínculo com a imagem ou com a pessoa? Com seus pensamentos, com seu ser, seu coração e alma?

Como é um grande mercadão, enquanto você conversa com alguém, há a ideia de que dezenas de outras também conversam com essa pessoa. E vice-versa.

No final das contas, todo mundo recua, fica com o pé atrás, mantém pessoas no banho-maria, engatilhadas. Uma grande coleção de NADA.

Desconfio que poucos tem energia, disposição, interesse ou atenção o suficiente para fazer alguma coisa de fato funcionar. Isso torna este mundo de aplicativos algo turvo.

Há poucas chances para uma nova aposta. Para gastar fichas.

Qual então, seria a solução para o “sucesso”?

dedinhos

Depende do seu objetivo. Da sua sorte, do destino. É um algoritmo desconhecido. O tempero que rege o tempo.

Talvez deixar de lado os trezentos e cinquenta e sete critérios que tenhamos criado ao longo da vida para podermos finalmente apreciar a companhia de outro ser.

Talvez apenas deixar levar. Joga na mão do Sol, Iemanjá, Zeus, Odin, o deus que você acreditar ou não acreditar.

No mínimo, você vai treinar suas habilidades pessoais para se relacionar. Serve como um coaching para si mesmo. Desde que você seja sincero com o seu eu.

Nada como a vida para nos ensinar, de forma dura ou sutil.

Os amores e as relações humanas de hoje são instáveis, não temos certeza do que esperar. Relacionar-se é caminhar na neblina, sem a certeza de nada.

Ainda mais em tempos tão individualistas.

Mas… É isso que nos move.

A única coisa que torna a vida possível é a incerteza permanente e intolerável: não saber o que vem depois.

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  • Renata leal

    Perfeito! O vídeo da carne passando a tela do smartphone é impactante. Chega a incomodar. Gostei muito!