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Como a série Vikings me ajudou na Copa do Mundo | Crônica

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Como a série Vikings me ajudou na Copa do Mundo | Crônica

É domingo de dia das mães e meu telefone toca com um número desconhecido. Eu estava mesmo esperando uma ligação sobre uma entrevista que havia feito no CAT (Centro de Apoio ao Trabalhador) que fica bem no centrão de São Paulo. Mas qual é a empresa de RH que trabalha de domingo? Para a minha surpresa, a notícia era a seguinte: “Paula, parabéns, você foi convocada para trabalhar na Copa do Mundo FIFA 2014”. Gente, juro, eu saltei tão alto quando desliguei o telefone que parecia que tinha um foguete prestes a decolar dentro de mim.

Dia das mães é bom estar com a mãe, não é? Eu estava com a minha, e corri contar a novidade para ela. Ela sorriu, mas sarcástica falou: “Tá feliz assim por quê? Você nem gosta de futebol”. É verdade, eu nem gosto de futebol. Não tenho time e faço cara feia quando começa o assunto. Mas Copa do Mundo é Copa do Mundo. E ainda aqui no Brasil? Um evento único que talvez nem nossos bisnetos tenham a oportunidade de vivenciar. Eu nunca tinha ido em um estádio antes e, como fã de uma boa aventura, minha felicidade ao receber essa resposta positiva foi sincera e genuína.

Meu próximo passo era assinar o contrato e participar de um treinamento extremamente desgastante na Faculdade Rio Branco, na Lapa, em São Paulo. Sem querer cuspir no prato que comeu, o lanche que serviam para gente era tenso: pão de forma com presunto e queijo (às vezes só com queijo), maçã ou banana, bolinho industrializado, batata chips e com sorte uma bananinha sem açúcar.

A comida foi servida com esse menu todos os dias de jogos e de treinamento. “9 dias de pão Pullman” poderia ser o título desse texto. Virou piada nos últimos dias é claro, mas voltei do primeiro dia chorando, com muita dor de cabeça e com raiva das exigências.

Copa do Mundo FIFA 2014

FireShot Screen Capture #002 - 'Como a série Vikings me ajudou na Copa do Mundo I Crônica I Geekness' - geekness_com_br_copa-mundo-cronica

Brasil x Croácia

“Não pode comer, não pode beber, não pode aceitar presentes, gorjetas, nem trocar cartões. Não pode fotografar, não pode sentar, não pode ver o jogo, nem no estádio, nem na televisão. Não pode ir com uma meia calça mais fina nem mais grossa do que fio 40. Não pode usar batom sem ser vermelho e não pode não usar. Não pode usar esmalte colorido.

 

Não pode tirar a blusa se estiver calor, ‘se você tirar, todas as outras meninas terão que tirar também’ (alguém entende essa regra? Até agora para mim não faz sentido). Você vai andar por um estádio inteiro usando salto alto e não pode levar mochila. Faça tudo isso sorrindo sempre, por favor, obrigado”. É o que nos diziam.

Neste mesmo tempo eu acompanhava, desde o começo, a série VikingsRagnar, Lagertha, Rollo, Flok e outros me mostravam toda a sua bravura e desejo de exploração. Eu confesso que quase não voltei para o segundo dia de treinamento, mas de alguma forma o espírito guerreiro do Ragnar se instaurou dentro mim e me fez pensar que a vida é uma só.

As oportunidades – todas elas – acontecem apenas uma vez. Você pode ter outras no futuro e até melhores, mas como àquela nunca mais. E como diz a máxima de Heráclito: “Você nunca tomará banho duas vezes no mesmo rio, pois quando você voltar você não será mais o mesmo, nem o rio”.

Passado o choque, eu voltei. Nossa contratante era a CSM, terceirizada pela Match, que foi contratada pela FIFA. Em São Paulo foram convocados cerca de 400 hostess – de diferentes idades e profissões – para atender as áreas de hospitalidades, ou seja, os camarotes, da Arena Corinthians, que eu prefiro chamar de Itaquerão. Foram ao todo seis jogos, incluindo a abertura.

Confesso que o dia que antecedeu à abertura eu mal dormi de ansiedade. Nós íamos inaugurar o evento e receber pessoas do mundo inteiro em um estádio que não estava acabado e que até então tinha chance de acontecer manifestação. Por sorte isso foi o último dos problemas, as manifestações não tomaram grandes proporções e milagrosamente ao passar dos jogos, o evento foi caindo na graça das pessoas – afinal, é Copa do Mundo, né gente?

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Holanda x Chile

No primeiro jogo, Brasil x Croácia, para meu martírio, fui colocada em uma vila que fica para fora do estádio. No Itaquerão haviam duas vilas: uma para torcedores, outra para convidados dos afiliados da FIFA, como a Budweiser, a LG, a Garoto, a OI e etc. Eu fiquei nessa última. Minha função era levar as pessoas para os seus receptivos camarotes. Só que a verdade é que ninguém sabia onde eram os camarotes. Não tinha mapa, não tinha informação, e a maioria das pessoas estavam ali pela primeira vez; foi tudo meio que encontrado na hora, na boa vontade.

Fiquei com medo de fazer feio, sabe? Mas aqui é o Brasil. Como disse o jornal Le Monde Diplomatique, “o Brasil organiza a Copa a sua maneira: desordenado e simpático, despreocupado e receptivo”. E não há palavras melhores para descrever, porque foi exatamente isso. Um sorriso e boa vontade mudam de verdade as coisas.

Pouco ouvi reclamações de gringos, mesmo andando em um sol a pino em busca de seus assentos, mas de brasileiros ouvi máximas como: “você sabe quanto eu paguei nesse ingresso?”; “É um absurdo pagar tudo isso para ficar rodando assim”. Aposto que foram os mesmos que vaiaram a presidente. O que, a meu ver, é uma falta de educação sem tamanho. Como pagar caro para ir em uma festa e vaiar o anfitrião. Qual a coerência?

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Coreia x Bélgica

O máximo de grosseria gringa que ouvi, que nem sei se pode chamar de grosseira, foi “porque meu lounge fica no sexto andar se ele é o 4B? Por que aqui é o Brasil?”. Eu tive que concordar com ele. Tirando isso o que eu mais ouvi dos gringos foi como eles amam o Brasil, como nosso povo é receptivo, como eles amam estar aqui e ter amigos brasileiros.

Depois do vexame de 7×1 do jogo Brasil x Alemanha houve a disputa entre a Argentina x Holanda no Itaquerão e digo que foi o melhor jogo até então. Haviam pessoas do planeta inteiro no estádio: Índia, África do Sul, Canadá, Inglaterra, México, Holanda, Arábia Saudita, Israel, Alemanha são algum dos exemplos de pessoas que falaram comigo muito felizes em estarem ali, e chateados pela goleada que o Brasil havia tomado no dia anterior. “Eu nunca vi o Brasil travado em campo daquele jeito”, disse um deles.

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Holanda x Argentina

Falar isso pode parecer simplista, mas a Copa do Mundo importa sim, ainda mais quando você está sediando ela. Os olhos do mundo inteiro ficam voltados para o país e pessoas do mundo inteiro, que nunca sonharam em visitar o Brasil, vieram participar do maior evento de futebol do mundo. A FIFA pode não ser a empresa mais admirável do mundo, mas ouso dizer que o evento é maior do que ela própria.

Me senti um pouco como o Ragnar ao final do último jogo, que para fechar com chave ouro, tive a sorte de ser sorteada com uma réplica da taça em miniatura. Eu havia recusado uma gorjeta de 100 euros de um senhor solicito que quis me pagar depois de eu ajudá-lo várias vezes. Como eu falei no começo: não podíamos aceitar nada, então recusei a grana – que valia mais que o dia de trabalho, por sinal. Tenho certeza que meu “karma alinhado” foi o motivo da sorte ter ganhado.

FireShot Screen Capture #005

Miniatura da taça

É verdade quando dizem que o mundo é dos jovens. Jovens não tem medo de se jogar. Há tempo para errar, cair e levantar. Mas quando você se aproxima dos 30, você começa a ter uma noção mais profunda do quão desimportante e rápida é a sua existência.

Somos pequenos grãos de areia nessa imensidão do universo, e por mais que existam pessoas que nos queiram bem, a nossa verdadeira importância é para nós mesmo. Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. Sendo assim: não passe vontades, coloque o medo no bolso e vá para guerra. Você voltará mais forte, mais guerreiro, com mais marcas… Porém mais feliz!

Leia também 6 motivos para assistir a série Vikings

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Paula Romano

Jornalista interessada em arte, tecnologia, cultura e sempre em busca de novas histórias. Se você tem uma, não deixe de me contatar no Facebook, Instagram ou no Twitter.
  • Vini Lima

    Eu sempre digo: o que você tem de pequena, tem de guerreira e de gigante por dentro! <3 Te amo, Sis!

  • Paula Romano

    Seu maravilhoso! <3

  • Diego Pinheiro

    Paula que texto incrível e verdadeiro, talvez uma das melhores crônicas sobre esse mundo futebolês e principalmente por encarar e superar os desafios. Sensacional!!

  • Michellle teixeira

    Paulinha que mara o seu texto,simplesmente AMEI!!!

  • Mario Ma

    Paula, se um Staff usa uniforme, o nome já diz “uniforme”, todos tem que estar uniforme com a vestimenta, então se um Staff está sem a blusa do uniforme, já não é mas uniforme, pois todos os tem que estar igual e as pessoas que irão ao auxílio identificarão todos como um só. Parabéns filha.

  • Paula Romano

    Sim, claro! Só não entendo porque não se pode tirar o agasalho. As pessoas estão uniformizadas, com ou sem a blusa de cima. É um pouco de preciosismo sem necessidade. Mas ok. Regras são regras. 🙂

  • Belo relato, mas eu fiquei esperando uma correlação maior entre a série e sua vivência na Copa; não vi Vikings ainda, mas sou aficionado por uma série de séries (rs) e o título me despertou bastante a atenção.