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Dark e o Paradoxo de Bootstrap

Julho 4, 2019

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Dark e o Paradoxo de Bootstrap

Dark é uma das séries mais aclamadas com o selo original da Netflix. A série alemã criada por Baran Bo Odar e Jantje Friese traz um enredo complexo com linhas temporais não lineares e uma sequência de intrigas entre famílias que vem à tona após o desaparecimento de crianças perto de uma usina nuclear.

O enredo se desdobra em uma série de personagens que, dentro da teoria de viagem no tempo amplamente explorada, acabam por ter várias versões de si mesmos a cada 33 anos.

Dark e o Paradoxo de Bootstrap

A história, além de abordar teorias da física quântica para dar muita dor de cabeça aos espectadores, também se aprofunda bastante em filosofia. Aqui, o Eterno Retorno de Nietzsche é muito bem referenciado.

Na primeira temporada, Dark criou muitas situações em torno dos personagens que culminaram em um final que deixou aberto muitas perguntas a serem respondidas na temporada seguinte.

Já era claro que teorias da física como o Buraco de Minhoca de Albert Einstein e Nathan Rosen, bem como a possibilidade de viagem no tempo, seriam as bases do enredo. Mas é na segunda temporada que se abre um caminho para compreender a linha temporal da série e os personagens.

Como Jonas, por exemplo, é capaz de existir em tantos tempos diferentes e como Elisabeth pode ser mãe e filha ao mesmo tempo de Charlotte?

*A partir daqui, o texto contém spoiler 😉

Dark e o Paradoxo de Bootstrap

Dark e o Paradoxo de Bootstrap
A chave para entender Dark: o paradoxo de bootstrap

Mencionado em algum momento durante os novos capítulos, está aí a chave para desvendar essas questões e a história fazer sentido na sua cabeça. Antes é preciso entender um pouco sobre o que esse paradoxo significa.

Se trata de um paradoxo teórico de viagem no tempo que acontece quando um objeto ou informação volta no tempo e fica preso em um looping eterno de causa e efeito no qual o item já não tem ponto de origem discernível, que por sua vez também pode ser chamado de “sem causa” ou “auto criado”.

O paradoxo também é conhecido como Ontológico, em referência à ontologia, um ramo da metafísica que trata do estudo do ser e da existência. O termo bootstrap é derivado da expressão “pull oneself over a fence by one’s bootstraps” (“levantar a si próprio pelas alças da bota”).

Para entender melhor, lá vai um exemplo: um viajante do tempo viaja ao passado e ensina a Teoria da Relatividade à Einstein, antes de retornar ao seu tempo de origem. Einstein alega que o trabalho é dele, e ao longo de décadas a teoria é publicada como sendo de sua autoria. Até que uma cópia vai parar nas mãos do viajante do tempo original, que então leva o trabalho de volta à Einstein. Uma questão se abre: qual o ponto de origem da teoria?

Não dá para afirmar que ela veio do viajante do tempo, uma vez que ele a aprendeu com Einstein, e também não dá para dizer que é de Einstein, já que ele foi ensinado pelo viajante do tempo. Então, quem descobriu a Teoria da Relatividade?

Isso é bem parecido com o que aconteceu em Dark. Tudo o que acontece na história se desdobra a partir da máquina da viagem do tempo, criada por H. G. Tannhaus. O projeto estava no livro “Eine Reise durch die Zeit” (“Uma Viagem Através do Tempo”), que ele escreveu no futuro, e entregue a ele por ele mesmo do passado em uma viagem no tempo. A máquina então só pôde ser construída por ele mesmo com a entrega do livro do eu do futuro.

Fins e começos

Dark e o Paradoxo de Bootstrap

Se você parar para pensar, tudo o que os personagens fazem ao longo da série é para impedir certos acontecimentos que levam ao apocalipse. Mas, ironicamente, tudo o que eles fazem é o que causa exatamente os acontecimentos oportunos para levar à catástrofe. Como se tudo já estivesse predeterminado.

O Jonas existe porque o pai dele apenas pôde existir porque Jonas existe. É o Jonas do futuro que levou Mikkel, seu pai quando criança, para a caverna para que ele viajasse no tempo e tudo pudesse existir. Isso tudo sob ordens do Adam, revelado como próprio Jonas do futuro mais distante. Mikkel então só pôde dar a vida a Jonas porque voltou para o passado.

Ou seja, os personagens centrais estão presos em um looping infinito causado pelo paradoxo de bootstrap.

Outro personagem intrigante é Elisabeth Doppler. A Elisabeth do futuro voltou para o passado e se relacionou com Noah, e teve uma filha: Charlotte.

Ela só consegue existir porque a Charlotte teve uma filha, no caso, Elisabeth. Mas ainda não ficou claro quando Elisabeth voltou no tempo.

O construtor da máquina de viagem no tempo, H. G. Tannhaus, é o avô de Charlotte, quem criou a menina que nunca conheceu seus próprios pais: Noah e Elisabeth.

O paradoxo de bootstrap é muito explorado pela ficção científica, e foi popularizado pelo escritor de Sci-Fi Robert A. Heinlein, no livro “By His Bootstraps“, de 1941. Nele, o protagonista Bob Wilson se encontra em uma série de paradoxos de viagem no tempo após usar um portal do tempo.

Doctor Who e Terminator são algumas produções da TV e Cinema que utilizaram a teoria nos enredos.

Mas é certo que nenhuma outra produção foi capaz de contar uma história tão complexa de maneira tão genial, com atmosfera sombria apoiada em mistérios, suspenses e intrigas de deixar qualquer espectador de cabelos em pé.

Se o paradoxo de bootstrap é a base para compreender as primeiras temporadas de Dark, prepare a cabeça para a terceira temporada, que deve concluir a história.

Ficou evidente que a série vai se aprofundar na física quântica abordando outras dimensões, já que no final da segunda temporada, uma Martha de outra dimensão surge a poucos minutos antes do apocalipse.

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Jornalista, escreve sobre arte, cultura, comportamento, psique, política e assuntos gerais relacionados às ciências, sociedade e mundo geek.
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