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Debi & Lóide 2 – Crítica

Debi & Lóide 2 - Crítica

“Ouvi uma piada uma vez: um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo’. O homem se desfaz em lágrimas, e diz: Mas, doutor… Eu sou Pagliacci”.

Dramático demais citar um trecho de Watchmen (1986), obra seminal do escritor britânico Alan Moore, na crítica de uma comédia? Provavelmente. Mas e quanto a ver o legado de uma das suas comédias preferidas estragado por uma sequência caça-níqueis? É um tanto dramático também, especialmente porque, como diz a sabedoria popular, “o buraco é mais embaixo”, como se verá.

Debi & Lóide 2 - Crítica

Debi & Lóide 2 (Dumb and Dumber To), sequência do improvável sucesso de 1994, deixa esse sentimento amargo ao final do filme. Você sai do cinema pensando em tudo que o longa poderia ter sido, mas não foi. Obviamente a tarefa dos diretores, os irmãos Farrelly, foi bastante ingrata. O primeiro filme é divertidíssimo, contando com um roteiro tão simples e absurdo que é impossível não se divertir com ele. Difícil fazer jus a essa obra que conquistou tantos fãs, fazendo da sequência um dos filmes mais promissores do ano.

Mas ficou só na promessa mesmo, pois a maior batalha dos diretores já estava previamente perdida. Eles não podem lutar contra a época, contra o espírito do tempo. A questão da passagem do tempo é jogada na tela durante o filme todo, não apenas pelo roteiro e pelas rugas dos atores – ressaltadas pelas caras e caretas que os papéis de Jim Carrey e Jeff Daniels exigem – mas, principalmente, pelo cenário cultural e político da contemporaneidade.

Hoje em dia tudo é muito diferente do que tínhamos há 20 anos. O que há hoje, que atrapalha tanto a sequência de Debi & Lóide? O politicamente correto.  O que vemos é que a auto-censura dos nossos dias se tornou uma trava real às boas comédias. Eu iria ainda mais longe: fazer um filme como esse, que depende de tiradas muitas vezes agressivas, grotescas e baseadas em estereótipos (inclusive de gênero), não é mais possível.

Se desenvolvesse uma veia cômica digna do nonsense dos protagonistas, o estúdio sofreria sanções na forma de classificação indicativa muito elevada, o tipo de coisa que pode inviabilizar uma produção. Também sofreria a ira da Liga das senhoras sem ter o que fazer do Arizona, da Associação de pais que procuram pelo em ovo ou alguma outra instituição do tipo. Certamente amargaria, ainda, as críticas de algum político tacanho e desocupado. Essa galera não ia deixar passar. Basta lembrarmos do imbróglio causado pelo deputado Protógenes Queiroz, que, em 2012, queria proibir a exibição do filme Ted no Brasil.

Mesmo muito abrandado pelas exigências da atualidade, não me surpreenderia em ver pessoas abandonando a sessão por achar algumas cenas “pesadas” demais. Tudo depende do referencial, ou seja, baseando-nos nas comédias atuais, Debi & Lóide 2 foge um pouco ao padrão, o que é ótimo. Mas não foge o suficiente, o que é péssimo.

Se nos lembrarmos dos antigos programas de humor da televisão americana, veremos que o primeiro Debi & Lóide bebe dessa fonte, funcionando como uma espécie de homenagem a antigos seriados cujo efeito cômico era derivado de injúrias físicas. O maior exemplo disso foi a longeva série Os três patetas, que mostrava irmãos desajustados (dois dos atores eram irmãos, de fato) fazendo trapalhadas. As gags e piadas do grupo ficavam mais no plano da agressão física e da comédia rasteira. Lloyd Christmas, personagem de Jim Carrey, remete diretamente a essa série, chegando a usar o mesmo corte de cabelo do “pateta” Moe.

Debi & Lóide 2 - Crítica

Outra coisa: o primeiro filme teve um lançamento despretensioso e Jim Carrey era um ator praticamente desconhecido. O carisma de seu personagem, aliado ao roteiro afiado da comédia, foram gratas surpresas, que o lançaram ao estrelato. Não se esperava nada do primeiro filme. Mas deste, esperava-se muito. A questão é: o que as pessoas esperavam? O público atual é sensível demais, qualquer ousadia o deixa chocado e reclamão.

Em Debi & Lóide 2, os créditos de melhor piada nem mesmo pertencem aos protagonistas, mas a uma cacatua que arranca risos dos espectadores ao citar, no momento certo, uma das falas mais célebres do cinema: “o horror, o horror”. Sim, humor é subjetivo. Mais que isso, é relativo, cultural e profundamente atrelado ao momento. O que foi engraçado há vinte anos pode não fazer a plateia rir hoje, até mesmo porque receitas bem sucedidas tendem a ser copiadas até o ponto em que se tornem clichês, mais um dos males que acometeram Debi & Lóide, que se tornou parâmetro para a indústria de humor durante muitos anos.

Então, o filme que lançou vários clichês da comédia, hoje se rende a outros, como as piadas escatológicas que, se não são originais, garantem algumas risadas, especialmente entre os adolescentes, que têm uma predisposição para gostar delas. O bullying agressivo, marca registrada do primeiro filme, embora presente na sequência, não fez o cinema rir tanto quanto o periquito que cita Apocalypse Now.

É triste pensar no que fariam, nos dias atuais, grandes mestres do humor como Charlie Chaplin, Stan Laurel e Peter Sellers. Creio que eles não teriam muito espaço. A prova disso é John Cleese, ainda vivo, mas totalmente apagado. Terry Gilliam, seu companheiro de Monty Python, também continua batalhando para sobreviver na indústria do cinema. Uma comédia distópica e inventiva como Brazil, lançada por Gilliam em 1985, não tem mais espaço.

Humor de qualidade exige conhecimento de mundo, articulação de ideias, consciência política, ou seja, exige repertório. Piada de peido é fácil, qualquer um faz. Mas e quanto ao que a trupe de Cleese fez em O Sentido da Vida (1983)? Aquilo é genialidade. No seu cerne, o gênio costuma ser um cara triste. Os amigos íntimos do mestre do humor Jerry Lewis, sempre o definiram como um sujeito quieto, solitário, por vezes até mal humorado. Certa vez, Lewis chegou a ter uma crise de depressão que o levou a uma tentativa de suicídio. Agora creio que o excerto de Watchmen faz mais sentido.

Nota: 3

3estrelas

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  • Diretor: Robert Farrelly e Peter Farrelly
  • Duração: 110 minutos
  • Elenco: Jim Carrey, Jeff Daniels, Laurie Holden, Rachel Melvin
  • Lançamento: 13 de novembro de 2014

 

 

 

 

 

 

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Designer, ilustrador e professor. Adora conhecer novos restaurantes e é fanático por livros e filmes antigos.