Cinema e TV

Loveless: não se pode viver a vida em desamor

O pesado, angustiante e necessário filme de Andrey Zvyagintsev

Loveless (Desamor), o filme niilista dirigido por Andrey Zvyagintsev, nos mostra as diversas sombras que habitam as pessoas, uma em especial, e mais abordada na trama: a incapacidade de amar.

Há quem viva uma vida inteira sem conhecer e sentir o amor. Porque tal sentimento lhe é negado de alguma maneira, ou se é incapaz de olhar para fora de si.

O vazio que o substitui pode comprometer as escolhas, os ideais, a maneira como se vive e sente a vida e, sobretudo, de como as pessoas se relacionam.

Este sentimento que tanto almejamos, os poetas, filósofos e artistas expressam e se empenham em encontrar sua real definição há muitos anos.

Os cientistas chegam perto, e nos dão uma explicação de que o amor nada mais é do que substâncias produzidas quando mantemos relações saudáveis e de mútuas trocas de respeito, empatia e afago – elementos que, antes de tudo, se supõe que sejam aprendidos no ambiente familiar e, mais tarde, colocados em prática nas amizades e relações amorosas.

Fica claro que o desamor também é tansmitido como herança familiar.

O filme retrata bem isso.

Alyosha (Matvey Novikov) é filho do casal Boris (Aleksey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak), que estão se divorciando. A mãe logo no começo se mostra fria e incapaz de demonstrar o mínimo sequer de carinho pelo filho, no qual é canalizado toda sua infelicidade e descontentamento pessoal.

Não há muito mistério sobre o motivo da separação; o marido infiel engravidou uma moça muito mais jovem que ele e agora vive fazendo promessas para a nova paixão, muito semelhante a como começou o primeiro casamento.

Enquanto ambos se fecham em seus mundos particulares e disputam quem vai se sair melhor na separação, Aloysha some.

O filme tem uma atmosfera densa e angustiante não só pelo clima frio e cinza da Rússia, mas porque representa, sobretudo, as superficiais, egoístas e parasitárias relações não tão humanas assim.

E de como buscar uma felicidade cada vez mais individualista, descarta-se quem está ao redor sem medir consequências.

Em uma cena, o garçom pede o telefone de uma bela moça que se vira sensualmente e cede o número sem pensar duas vezes e, depois, se senta ao lado do namorado.

Acompanhamos ele servir a mesa onde Zhenya está sentada com seu novo affair, um ricaço de meia idade que não parece muito afetivo, mas mostra ser o personagem mais sensato. Há um momento que ele a (nos) avisa: “Não se pode viver a vida em desamor”.

Ainda no mesmo restaurante, a câmera nos conduz a uma mesa onde se encontram várias jovens que estão se divertindo em uma noite de “amigas”. Elas posam cuidadosamente para que exibam bem seus corpos e o melhor ângulo de seus rostos para fazer uma selfie.

Mais um retrato da nossa atualidade, na qual muitos anseiam sair, viajar e frequentar os melhores restaurantes para simplesmente postar uma foto na rede social. A eterna competição de quem leva a vida mais glamourosa e interessante.

A verdadeira essência das relações e de como se vive os momentos felizes, foram substituídos por retratos manipulados de versões perfeitas e “invejáveis”.

São com esses momentos sutis durante o longa que o diretor reafirma sua crítica e pisa no calo de muita gente.

Simplesmente porque ele revela as sombras das relações pós-modernas, cada vez mais baseadas em trocas de interesses, vaidades e individualismos, se tornando por consequência, instáveis, passageiras, egocêntricas e solitárias.

Loveless mostra que trilhar um caminho egoísta pode nos levar a um lugar cada vez mais longe do “amor” e da profundidade das relações, dos pequenos prazeres da vida e, talvez, até de nós mesmos.

“O amor só é possível se duas pessoas se comunicam mutuamente a
partir do centro de suas existências e, portanto, se cada uma se experimenta
a partir do centro de sua própria existência. Só nesta “experiência central”
existe realidade humana, só aí há vivacidade, só ai está a base do amor.
Assim experimentado, o amor é um desafio constante; não é um lugar de
repouso, mas é mover-se, crescer, trabalhar juntamente; haja harmonia ou
conflito, alegria ou tristeza, isso é secundário em relação ao fato
fundamental de que duas pessoas se experimentam mutuamente a partir da
essência de sua existência, que são uma com a outra por serem uma consigo
mesmas, em vez de fugir de si mesmas. Só há uma prova da presença do
amor: a profundidade da relação e a vivacidade e o vigor em cada pessoa
envolvida; este é o fruto pelo qual o amor é reconhecido.”

– Erich Fromm em “A Arte de Amar”.

 

Desamor (Loveless / Nelyubov)

Diretor:  Andrey Zvyagintsev
Roteiro: Oleg NeginAndrey Zvyagintsev

Duração: 2h 7 minutos

Elenco:  Maryana SpivakAleksey RozinVarvara Shmykova  | Veja o elenco completo

Lançamento: 1 de junho de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Jornalista, escreve sobre arte, cultura, comportamento, psique, política e assuntos gerais relacionados às ciências, sociedade e mundo geek.