O pesadelo meritocrático e tecnognóstico em Advantageous

A atual safra de filmes independentes de ficção científica é estranha e incômoda. Principalmente porque mostra mundo futuros que mais parecem hiper-reais espelhos do presente. Em Advantageous (2015) não vemos futurologia, explosões ou thrillers turbinados por efeitos especiais, marcas do gênero. Mas um futuro próximo no qual finalmente as mulheres galgaram os postos de comando e prestígio, porém dentro de uma implacável ordem meritocrática onde não se trata mais de “a cada um de acordo com seu mérito” – só há duas alternativas: vencer ou perder. Se perder, viver escondido nas ruas ou na prostituição. Se vencer, fazer parte de uma elite cuja juventude e beleza é a marca do marketing pessoal do sucesso. Ameaçada pela demissão por ser considerada “velha” demais, uma executiva de uma clínica avançada de saúde e estética vê-se desesperada com o futuro da sua filha numa sociedade sem escolas públicas e com desemprego em 45%.  Sem saída, oferece-se como cobaia a um novo produto da clínica: a total digitalização da mente para ser transferida a um novo corpo jovem e belo. Um filme sobre identidade e escolhas. Filme disponível na plataforma Netflix. 

“Não sei porque estou viva… preciso exercitar-me mais, estudar mais, ser mais inteligente, gentil, bonita, elegante, mas para quê?… vocês não sabem o que estão fazendo, fingem ter um plano para nós… mas são todos gananciosos ou desesperados. Por que me teve?”.

Essa é uma das linhas de diálogo da menina Jules, de 12 anos, com sua mãe, Gwen, até então uma bem sucedida executiva de uma grande clínica avançada de saúde e estética.

Jules está submetida a uma maratona de estudos para poder passar no processo seletivo das melhores escolas da elite de um futuro próximo em uma sociedade no qual existem apenas duas alternativas: vencer ou, então, terminar como um sem-teto escondido pelos cantos de uma grande metrópole de torres de vidro, metal e outdoors digitais.

Advantageous, dirigido por Jennifer Phang e o roteiro escrito pela atriz protagonista Jacqueline Kim, ganhou em 2015 o Prêmio Especial do Júri no Sundance Film Festival por “uma bela parábola sobre o amor, o sacrifício de uma mãe e de uma sociedade que cultua a juventude”.

Porém, a justificativa pelo prêmio concedido ao filme não faz jus à corrosiva projeção que o filme faz para o futuro a partir de valores considerados moralmente bons na atualidade: o esforço pessoal, a meritocracia, a luta feminina em galgar os mesmos cargos de elite masculinos e o culto da beleza e juventude como expressão máxima do sucesso individual em um mundo altamente competitivo.

Ao ponto em que crianças como Jules, que ainda vive o mundo lúdico infantil e vê à distância o mundo de ganância e desespero para o qual está sendo compelida, começam a questionar o porquê de terem sido concebidas e postas naquele sociedade.

Advantageous é uma estranha ficção científica: há a tradicional iconografia do gênero com metrópoles ao estilo Blade Runner com naves espaciais circundando torres futuristas, comunicadores com interfaces holográficas e uma clínica que lida com alta tecnologia envolvida com pesquisas que vão além da estética: a busca da própria imortalidade.

 

O mal estar do presente no futuro em Advantageous

Mas há um mal estar bem atual – os valores que estruturam aquela sociedade são projeções hiperbólicas dos valores atuais tidos como justos e moralmente positivos, o ideário da meritocracia e do sucesso. Mas em Advantageous, esses valores são levados ao extremo, sem mediação, regulamentação ou qualquer contrapeso humanista.

O que torna o filme mais um exemplo atual da tendência hipo-utópica no gênero sci-fi – são filmes mais perturbadores do que os tradicionais mundos distópicos e pós-apocalípticos, porque se parecem muito com o presente – porém, figurado com tintas mais fortes – sobre o conceito de hipo-utopia clique aqui.

Num mundo darwinista social como apresentado em Advantageous, estética e beleza vão além da saúde: são ferramentas de marketing pessoal para representar vitória e sucesso num mundo em que todos obsessivamente querem se distinguir dos “perdedores” que dormem escondidos em esquinas e jardins na metrópole. Combinado, então, com a alta tecnologia bio-computacional, promete muito mais – a juventude e sucesso eternos através da imortalidade.

A realização do sonho tecnognóstico de traduzir em bites nossa alma, consciência e identidade e, através de um upload final, despachar o nosso eu para o céu digital. Mas no mundo de Advantageous,  pessoas bem sucedidas não podem envelhecer e “morrer”. Que tal transferir um clone digital do seu eu para um corpo jovem “doador”?

Mas o mecanismo social que fazem pessoas jovens se oferecerem como doadoras de corpos para os “vitoriosos” é o mesmo que reproduz outras mazelas da desigualdade naquele mundo, como a prostituição infantil.

 

O Filme

Advantageous acompanha Gwen (Jacqueline Kim), uma mãe solteira e executiva porta-voz de um Centro Avançado em Saúde e Estética. Seu emprego está em risco pela mudança dos planos de marketing da empresa: seu rosto é “velho” e “asiático” demais para os planos estratégicos globais.

Principalmente por causa do novo salto tecnológico: não mais tratamentos estéticos invasivos, mas agora a promessa da eterna juventude migrando o eu para outros corpos jovens.

Gwen está cada vez mais desesperada em manter o emprego e garantir o futuro da sua filha Jules (Samantha Kim) – o desemprego está em 45% e não há mais escolas públicas. A única opção para a brilhante Jules é passar num processo seletivo de uma única escola que oferece bolsas. Ou, então, pagar as caríssimas escolas particulares.

Contrastando com os prodígios científicos e arquitetônicos, há um desespero latente naquele mundo: Gwen sai de sua casa e dá de cara com uma criança sem teto escondida num jardim. Há notícias sobre o aumento da prostituição infantil. E ao longo do filme, acompanhamos como pano de fundo explosões na torres detonadas por um grupo terrorista chamado “Terra Mamoria”.

Mas há ainda uma ironia maior: a esmagadora maioria dos desempregados são homens. As mulheres conseguiram ocupar os cargos mais elevados daquela sociedade – mas, nem por isso, o mundo ficou mais humanizado.

 

Pelo contrário: competição, mérito e sucesso são princípios que se tornaram maquínicos, tecnológicos. Gwen ficou “velha” demais para o seu cargo. Mas com uma pós-graduação e experiência em ensino superior, Gwen sugere a sua chefe Isa (Jennifer Ehle) que poderia ensinar os novos empregados da empresa.

Mas a profissão de professor não existe mais: segundo Isa, virou “tecnologia pura”.

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